Phengaris alcon. Alvão 2014.

Visitámos o Alvão pela primeira vez em agosto do ano passado. O objetivo era claro: fotografar a Phengaris alcon, uma borboleta que, no nosso país, tem apenas algumas pequenas populações dispersas pelo norte. Na altura, e apesar de as termos encontrado em abundância, a objetiva da minha máquina estava nas últimas e as fotos não saíram muito bem.

Este ano, de regresso de Montesinho, decidimos parar mais uma vez no Alvão. Embora em número inferior ao que encontrámos o ano passado em princípios de agosto, elas ainda voavam. Deu para lhes tirar o retrato e também aos seus ovos, colocados em Gentiana pneumonanthe, a sua planta hospedeira.

 

Montesinho 2014, dia 2

O nosso segundo dia em Montesinho foi dividido em duas partes, em zonas com ecossistemas distintos, de onde resultam espécies, também elas, bastante diferentes.

Manhã: o lameiro de altitude da Lama Grande

Desta vez na companhia do Aurélio, da Cristina, do Ulisses e da Natália, subimos até à região da Lama Grande, situada a 1400 metros de altitude. Aqui é possível encontrar algumas borboletas caraterísticas dos sistemas montanhosos da Europa, algumas das quais, no nosso país, apenas são conhecidas deste local.

A zona é-nos bastante familiar de várias visitas anteriores mas desta vez, para nossa surpresa, encontrámos um vento gélido e uma temperatura a rondar os 16ºC. Aparentemente uma má partida…

Antes de chegarmos às borboletas não posso deixar de falar da Casa da Lama Grande. Trata-se de um imóvel pertencente ao Parque Natural de Montesinho e que se destina(va) ao alojamento em regime de turismo rural, sendo vocacionada, essencialmente, para grandes grupos. Isolada de tudo e de todos, esta Casa parecia rodeada por um certo misticismo o que, dada a sua localização no topo da Serra, não surpreende.

Ao longo dos últimos 10 anos, consoante vamos regressando ao local, o abandono e degradação tornam-se mais evidentes de ano para ano. Julgo que os painéis solares em frente à casa terão sido os primeiros a desaparecer. Depois foram alguns vidros partidos… Nada disto, porém, nos preparava para o cenário que encontrámos este ano: as portas arrombadas e o interior da casa esventrado. Fios elétricos arrancados, soalhos levantados, azulejos e louça sanitária partida e, quanto ao resto que ali tenha existido, simplesmente desaparecido… (Aqui fica um agradecimento ao Aurélio pelas fotos que se seguem.)

Talvez seja uma situação que não me devesse surpreender! Das 22 casas florestais do Pinhal do Rei (imóveis públicos!), duas já desapareceram e 17 estão em avançado estado de degradação, a maioria delas quase em ruínas. Qualquer pessoa com o mínimo de visão consegue aperceber-se do elevado potencial turístico e, no caso das guardas da Marinha, do interesse histórico destas casas. Apenas o seu proprietário, o estado, parece ser adepto da sua completa deterioração. Que triste país o nosso.

Voltando às borboletas: provavelmente devido ao vento, a quantidade que encontrámos a esvoaçar no local era muito reduzida se comparada com o que temos vindo a encontrar em anos anteriores. De qualquer maneira, ao longo da manhã, consoante fomos caminhando em direção à fronteira norte, foi aquecendo um pouco e, de forma tímida, elas começaram a aparecer em maior número.

Quase em Espanha.

Quase em Espanha.

Assim, entre a erva rasteira (as árvores são escassas no local) fomos encontrando uma ou outra espécie, algumas comuns e dispersas, outras bastante típicas destes ecossistemas de altitude.

A espécie mais abundante parecia ser a Coenonympha dorus, uma pequena borboleta da família Nymphalidae. Ainda da mesma família, observámos algumas Arethusana arethusa, uma borboleta que no nosso país apenas ocorre na Serra da Estrela e nas montanhas a norte do Douro, habitat ocupado também pela Hyponephele lycaon (identificação confirmada pelo Fernando). Com uma área de distribuição um pouco mais alargada, ocupando a generalidade da região norte do país, encontrámos também uma Hipparchia hermione. Para terminar esta família resta referir duas espécies, muito comuns, que também ali apareceram: a Pyronia tithonus e a Melanargia lachesis.

Da família Lycaenidae avistámos algumas borboletas muito interessantes. Uma única Favonius quercus, espécie que, não sendo incomum, é raramente avistada por voar no topo dos carvalhais. O indivíduo em causa estava já bastante deteriorado o que poderá ter facilitado a sua deteção, mas que dificultou a sua identificação – esta foi posteriormente confirmada pelo Eduardo. Às comuns Polyommatus icarus e Leptotes pirithous, devemos adicionar uma espécie emblemática deste local: a Lycaena virgaureae. Com apenas duas populações conhecidas no nosso país (uma na Lama Grande e outra em Montalegre), a L. virgaureae é uma das borboletas nacionais com menor área de distribuição, estando por isso muito suscetível a pequenas alterações no seu habitat. Apareceram ainda algumas Plebejus argus, espécie distribuída intermitentemente ao longo do país, com preferência por áreas montanhosas.

Quanto a borboletas diurnas, resta referir uma família, a Hesperiidae, da qual apareceram algumas Hesperia comma.

Também algumas noturnas se fizeram notar: Pyrausta despicata (Crambidae), Lythria sanguinaria (Geometridae) e Coscinia striata (Erebidae).

Afinal as previsões pessimistas acabaram por não se confirmar: para uma  passeio com menos de 3 Km e pouco mais de 2 horas, a contabilidade final foi muito positiva!

Tarde: a galeria ripícola da Ribeira do Ornal

Dez quilómetros mais a sul e cerca de 700 metros mais abaixo, encontramos um habitat substancialmente diferente daquele que percorremos de manhã. Na galeria ripícola da Ribeira do Ornal abundam os choupos, os salgueiros e os amieiros. À margem, alguns prados verdejantes e lá mais adiante, vastos carvalhais a perder de vista.

As borboletas, obviamente, acompanham esta mudança. As espécies que aqui encontramos são bastante distintas daquelas que vimos no topo da serra. Entre os hortelãs que abundam nos terrenos parcialmente alagados pela ribeira, inúmeras espécies aproveitam os raios de sol que conseguem atravessar a copa das árvores.

Da família Nymphalidae vimos algumas Issoria lathonia, espécie relativamente comum mas que já não avistava há algum tempo. Uma única Inachis io estava pousada na lama na margem da ribeira e levantou voo à minha aproximação, parando no topo das árvores… Às comuns Melanargia lachesis, Melitaea deione (obrigado ao Eduardo) e Coenonympha pamphilus resta adicionar as menos vulgares Boloria selene, Boloria dia e Argynnis paphia para completar as representantes desta família.

Lycaena tityrus, espécie que ocupa, preferencialmente, o norte do país foi a borboleta mais interessante da família Lycaenidae. As duas outras foram a Lycaena phlaeas e a Polyommatus icarus, espécies muito comuns e com uma distribuição alargada.

Da família Hesperiidae surgiram a Ochlodes sylvanus e um Pyrgus sp. que ficará por identificar. A família Pieridae estava representada pelas Pieris napi. Surgiram ainda alguma noturnas, nomeadamente a Lythria sanguinaria (Geometridae) e a Diacrisia sanio (Erebidae).