Durante o inverno, particularmente em dias de tempestade, não é invulgar avistar alguns bandos de gaivotas sobre a Marinha Grande. Estes pequenos grupos, com cerca de uma vintena de indivíduos, estão apenas de passagem e em poucos minutos desaparecem.

Desde há uns meses para cá, porém, a situação alterou-se. As gaivotas parece terem vindo para ficar e, de dia para dia, o seu número parece aumentar consideravelmente. Hoje seriam, certamente, centenas, sobrevoando a cidade em círculos alargados, sem nunca se afastarem.

Uma visão invulgar que, por isso mesmo, suscita alguma curiosidade.

A manter-se esta tendência, porém, com o bando a aumentar e a fixar residência, parece-me inevitável que os interesses das gaivotas choquem com os interesses dos homens. Um bando com estas dimensões deve fazer porcaria suficiente para começar a tornar-se incómodo. Por outro lado, se considerarmos a sua alimentação citadina (aposto que não é peixe fresco), alguém se lembrará que estes animais constituem um problema de saúde pública.

Uma vez que os nossos decisores não primam pela sensibilidade ambiental, deixo um alerta antecipado: matá-las a tiro não é solução. É preciso descobrir o que as atrai e eliminar o problema na fonte.

A minha caminhada matinal deste sábado revelou-se, subitamente, uma tristeza. O Lis é um rio martirizado. As notícias que ouvimos a seu respeito apenas relatam desastres ambientais ou, de tempos a tempos, promessas vãs de políticos que pouco se importam com o destino de um rio “insignificante”.

Após as cheias dos últimos anos, alguém decidiu que teria que se fazer alguma coisa. A prevenção de cheias é um problema interdisciplinar complexo: requer estudos elaborados, financiamento adequado, boa vontade dos vários intervenientes e tempo para colocar em prática as ações mais apropriadas.

Quando li há dias, na imprensa regional, que o Lis tinha sido alvo duma limpeza para evitar cheias neste inverno, percebi que se tinha optado, uma vez mais, pela clássica solução em cima do joelho que nada resolve. Talvez seja o suficiente para calar as vozes que exigem respostas imediatas, mas não passará disso.

Hoje, na tal caminhada matinal, numa zona com um elevado potencial ambiental e turístico, percebi a verdadeira dimensão que esta “limpeza” atingiu.

o Lis, em março de 2014:

o Lis em janeiro de 2015:

Tenho plena consciência das dificuldades inerentes à prevenção de cheias. Não sou indiferente, sequer, aos constrangimentos orçamentais a que parecemos estar sujeitos desde sempre. Mas é por isso, precisamente, que questiono esta opção (uma opção de 119 mil euros!). Entre todas as alternativas de prevenção, escolheu-se a que tem os resultados mais questionáveis. Pior: foi levada a cabo de forma tão exemplar que não posso deixar de me interrogar se se estaria a fazer uma limpeza à vegetação ou, simplesmente, a tentar destruir o habitat das dezenas de espécies de aves que ocupam este local.

Entretanto, quando chegar a chuva, a água fluirá sem entraves. Lamentavelmente, com um curso em perfeita linha reta (herança de uma profunda intervenção de meados do século XX), as águas do Lis alcançarão velocidade suficiente para possuírem uma grande capacidade erosiva. As margens do rio, sem vegetação que as suporte, estarão mais suscetíveis a esta erosão. Mais a jusante estes sedimentos arrancados às margens irão acumular-se assoreando o leito do rio. Uma combinação explosiva.

Embora o excesso de vegetação e de detritos acumulados no leito possam ser potenciadores de cheias, um corte drástico como aquele que agora foi realizado em nada me parece contribuir para a resolução do problema. Enquanto não houver a coragem de elaborar um plano que preveja uma solução integrada, ambientalmente equilibrada e sustentável, este problema regressará ao Lis de forma cíclica, apenas condicionado pelo rigor do inverno.

Caso contrário, mais valerá desistirmos: passamos a chamar-lhe o “canal Lis”. Porque de Rio, aquilo que hoje encontrei, tem muito pouco.